Nordeste e a seca, engenharia e sociedade

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Vou tentar passar aqui o que aprendi na palestra oferecida pelo Instituto de Engenharia sobre a realidade nordestina e a necessidade de recursos hídricos.

A situação de boa parte da população do nordeste que vive no chamado “sertão” sempre é motivo de reportagens em todos os tipos de mídia. Mas mesmo assim, existe muita informação que não chega ao público.

Um exemplo desse tipo de informação é a geológica, você sabia que a maior parte do solo do nordeste brasileiro é formada por um escudo cristalino? Escudo cristalino é o mesmo que dizer que existe uma enorme rocha sob todo o território. Por isso a porção de solo para plantio é muito fina, o que faz que não exista acúmulo de água no solo, nem grande fixação de nutrientes, resultando em um solo seco e pobre.

Conservação da caatinga
Conservação da caatinga

Isso também é um fator agravante para a perfuração dos tão conhecidos poços artesianos. Primeiramente é caro perfurar a rocha, depois ainda encontra água salobra no subsolo. Então quando você assisitr aquelas reportagens tocantes na TV e eles mostrarem um poço fechado, pode ser que ele não seja potável, só isso.

Um fator mais conhecido é o climático, pois nessas regiões em geral chove somente três meses por ano. Nesses três meses também chove o que é esperado pro ano todo.

Como essa situação já é conhecida pelos moradores dessa região, é claro que já existem medidas para “resolver” o problema.

Uma das medidas é a formação de vários açudes para captação de água nos períodos de chuva. Esses açudes por sua vez são divididos entre os cadastrados e os não cadastrados. Os grandes açudes são fruto do governo federal e são os cadastrados, não são somente grandes, são gigantescos. O maior deles possui capacidade para 6,7 bilhões de metros cúbicos de água, o sistema Cantareira possui 1 bilhão de metros cúbicos de água.
Os açudes menores, que servem para abastecimento de cidades individualmente não possuem um cadastro quanto aos departamentos hídricos e nem projeto, são feitos na pressa, sem planejamento. Um exemplo desse tipo de açude é o de Quixeramobim, que possui 1 milhão de metros cúbicos de água, mas não possui nenhum tipo de obra de infraestrutura. Nesse exemplo, quando as chuvas ultrapassam o volume que o açude comporta, a água “vaza” por cima da estrada, deixando os moradores ilhados.
Um problema nos reservatórios dessa forma é a grande área exposta, pois ela colabora para o aumento da evaporação, fazendo com que se perca até 4m de nível dos reservatórios por ano somente na evaporação.

Obras dos canais a serem abastecidos pelo rio São Francisco.
Obras dos canais a serem abastecidos pelo rio São Francisco.

A outra obra em andamento desde 2007 é a transposição do rio São Francisco. Vamos aproveitar para esclarecer que a vazão a ser retirada do rio é menor que a margem de erro no cálculo da vazão total do rio (seria o mesmo que numa pesquisa eleitoral com margem de erro de 2%, dizer que um candidato com 2% de votos totais é relevante). Mas mesmo que a vazão não seja a preocupação do abastecimento no rio São Francisco, existem vários outro fatores.
O projeto implica em um trajeto que tem de fazer a água subir (que não é o curso natural) elevações de até 400m, o que só pode ser ajustado com estações de bombeamento.
As margens do rio estão sofrendo com o desmatamento, as novas margens das ramificações que estão sendo construídas não possuem vegetação plantada. Ainda deveria haver um plano de distribuição das águas do rio para as residências e plantações, para que não tivéssemos somente a passagem do rio sem planejamento de abastecimento. Nesses casos os exemplos de Petrolina-PE e Juazeiro-BA são casos de sucesso na implantação desses sistemas.

Para melhorar a situação dos moradores além da conclusão das obras, seria interessante reduzir as perdas de água por evaporação para aumentar a eficiência dos reservatórios. Com base em um projeto feito na Índia, poderíamos fazer estruturas para suporte de placas captadoras de energia solar sobre os canais do rio, reduzindo a área exposta à luz e gerando energia ao mesmo tempo, aproveitando o mesmo espaço.
Esta é uma proposta a ser avaliada, a ser feito estudo de viabilidade para conhecermos se realmente haveria vantagem em sua implantação no Brasil, mas mesmo assim ao que me compete, uma ótima ideia.

Um grande abraço!
Ronaldo Mendes Salles

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