Deixando Orwell feliz, ou não.

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Vamos falar sobre o uso do Big data? Ou do Small data? Quem sabe sobre o bla-bla data?

Não importa o título que você dê, o uso da informação é mais importante do que a informação em si.

Eric Arthur Blair teria rolado de raiva e arrancado os cabelos. Isto se ele visse o que sua obra gerou.

Caso você (assim como eu) não saiba, Eric Arthur Blair é o nome verdadeiro de George Orwell. Escritor especialmente conhecido pelo livro 1984.

Lá ele retrata uma sociedade que vive sob o jugo de um governo autoritarista que controla cada passo dos cidadãos.

Quando criado o reality show Big Brother, se estivesse vivo Eric certamente teria sentimentos antagônicos ao show. Sentiria nojo pelo uso de sua idéia original do “big brother” e ao mesmo tempo sentiria alívio de ver que sua “temida criação” não havia se concretizado.

Novamente chegamos em um momento onde Blair poderia se retorcer na cova. Não é de hoje que estamos cada vez enviando nossos dados pessoais para qualquer pessoa/empresa, sem um controle das reais necessidades disso.

Aplicativos de celular pedem autorização para usar partes de seu dispositivo móvel como câmera, galeria, microfone, sendo que raramente estes dados são necessários.

Mas no mundo que vivemos acabamos por aceitar contratos intermináveis todos os dias, em cada um de nossos aplicativos.

Algumas pessoas realmente temem o controle massivo de dados que empresas como Google e Facebook armazenam. Mas muitos dados são entregues de mão beijada para vários desenvolvedores de software independentes.

Mas ainda não é esse nosso assunto, mas sim algo que acontece virtual e fisicamente em um lugar bem longe dos Estados unidos. Vamos falar do programa de dados sobre os cidadãos chineses.

Então vamos lá…

Sim, é isso mesmo, apesar de ainda estar longe de ser uma realidade (lá se foi o spoiler). A China está trabalhando num programa beta de avaliação dos seus cidadãos. O programa teria de avaliar vários dados, cadastros e monitoramentos de subsistemas da infraestrutura de transporte e economia. Depois definir perfis, aplicar índices, classificar e definir ações a serem tomadas para cada cidadão separadamente.

Inicialmente o sistema seria para facilitar a decisão de vendedores quanto ao valor do seguro a ser vendido ou se um empréstimo deve ser aprovado ou não.

Claro que um sistema dessa magnitude quando fosse criado, dificilmente se limitaria a estas simples análises. De qualquer forma, já temos um grande paradoxo, o ranqueamento de pessoas com base em um algoritmo.

Provavelmente os idealizadores estão defendendo a segurança das operações financeiras. Pois a avaliação da validade de um serviço financeiro para certo cliente seria resultado de diversos fatores de análise. Análise que teoricamente mais profunda e precisa que a efetuada pelas instituições financeiras hoje em dia.

A China está transformando em realidade o problema que todos temem, mas ignoram.

Todos os seus dados, desde sua localização, postagens, amigos, compras, etc poderão ser usados contra ou a seu favor durante cada nova decisão do seu dia. Não pense que é algo como o interesse estatístico, como é aplicado já nos dias de hoje para calculo de prêmios de seguros. Estamos falando de personalização, não existe estatística neste novo cenário. Suas decisões vão facilitando ou dificultando o acesso para setores mais elevados da sociedade, desta forma até mesmo fatores não diretamente relacionados (cada decisão, por menor que seja, conta). 

Mas tudo isso ainda é um cenário leve. O que realmente está tirando o sono de vários legisladores, é o interesse declarado do estado Chinês em monitorar duas classes de profissionais em especial: jornalistas e advogados.

Por “coincidência” (entenda a ironia) estas são exatamente as classes profissionais que mais fazem uso de segredos e  fontes sigilosas, a maior parte desses fatores é apoiada por acordos internacionais. Como fica a confidencialidade entre cliente e advogado, se o governo monitora-os o tempo todo. Como fica a segurança de uma fonte que deseja permanecer anônima se o jornalista é monitorado o tempo todo?

Seria quase impossível não deixar rastros que estariam ao dispor do governo descobrir cada um desses segredos. Qual a validade da decisão de monitorar estas profissões em especial?

Não estou aqui tentando defender que advogados e jornalistas são sempre honestos, mas sim que o interesse na quebra desse tipo de privacidade somente revela a índole do um programa de espionagem interna muito forte.

Eles não são os pioneiros

Certa vez o governo americano teve de se explicar de forma extremamente vexamosa para seus próprios cidadãos. Isso aconteceru quando foi revelado que a CIA (Agência central de inteligência norte-americana) mais espionava dentro dos Estados Unidos do que fora dele.

Como isso vai se desenrolar dentro da China?

Desta vez o livro 1984 está sendo realmente representado, de forma mais clara e explícita. Quem sabe agora Blair pudesse aplaudir uma criação a altura da ficção, que ele imaginou seis décadas atrás.

Claro que Blair não defendia esse tipo de sistema de governo (não quero ser injusto), muito pelo contrário. Blair apostava na liberdade e igualdade entre os cidadãos. Como todo bom idealista, mesmo em meio aos fracassos de sistemas comunistas, ele manteve sua crença.

Agora qual será o próximo passo? Como será a reação da comunidade internacional? Bem, talvez não haja reação alguma, afinal como já afirmei, o próprio governo Chinês assume não ter recursos suficientes  para fazer algo tão abrangente…ainda.

O que estamos presenciando é algo similar a termos um país afirmando, que não tem uma bomba atômica, mas que está tentando construir uma.

Vou terminar com mais uma conjectura, saiba que um dos prováveis motivos de não haver uma retaliação internacional, é que os demais países querem saber se este tipo de sistema funciona, pois possivelmente desejam implantar algo similar no futuro.

Desculpe pela angústia, mas vamos acompanhar como isso se desenrola.

Um grande abraço!

Ronaldo Mendes Salles

Engenheiro Civil – Fundador do Engenheiro de Pijama

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