Cicatrização, adicione esta habilidade ao seu concreto.

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Se você acompanha as novidades da engenharia civil já deve ter ouvido sobre o concreto auto-cicatrizante.

Algumas vezes ouvi sobre este tipo de tecnologia, mas não conhecia algum uso prático ou notícias difundido o assunto.

Foi então que tive a oportunidade de participar de uma palestra apresentada pelo Engº Emílio Takagi. Na palestra ele nos expôs um dos estudos em andamento para melhoramento e aplicação deste tipo de concreto.

Contexto:

O concreto auto-cicatrizante anteriormente dependia de cápsulas de material liquefeito que ao serem adicionadas na argamassa, se romperiam na formação de fissuras e liberariam seu conteúdo. Dessa forma, as fissuras eram preenchidas. Porém este método era falho em vários sentidos, afinal e se ocorressem fissuras muito próximas, ou em locais reincidentes? E se a fissura fosse maior do que o material poderia preencher?

O que mudou?

Estes mesmos questionamentos fizeram com que as pesquisas mudassem/aprimorassem seu rumo, dando espaço para a utilização de compostos biológicos.

Começou a não ser tão incomum ver biólogos trabalhando em laboratórios de concreto de última geração. Pois a saída encontrada por uma linha de pesquisa foi a de utilizar bactérias para “reconstruírem” o concreto onde houve a fissuração. Como as bactérias não possuem exatamente um limite bem estabelecido de o quanto podem construir, elas atam ao passar do tempo.

Da mesma forma que nos primeiros estudos um composto ficava dentro de uma cápsula, as bactérias também são acomodadas em uma. Mas desta vez, a cápsula não foca em ser rompida na movimentação do concreto, mas sim na presença de água. A água dissolve o material e libera as bactérias pra o ambiente dentro do concreto.

Uma vez lá, as bactérias se alimentam dos materiais em excesso que existem na argamassa. Como foi constatado pela pesquisa, concretos com alto índice de escória, pozolana, ou derivados, fornecem estes materiais como combustível para as bactérias crescerem.

Como garantir que as bactérias estão vivas?

Talvez esta pergunta seja justamente o motivo de escolher bactérias. As bactérias possuem uma capacidade de ficarem inativas e consumirem pouca energia. Mas uma vez despertadas, não crescer e ocupar o espaço que lhes for permitido.

Também há outras maneiras de cicatrizar o concreto:

Não somente o uso de bactérias tem sido desenvolvido, mas também o uso de cerâmica.

Sim, cerâmica. Os japoneses estão estudando métodos de fazer com que micro-cerâmica possa fazer o mesmo tipo de efeito das bactérias. O comportamento da micro-cerâmica é impressionante, pois os pesquisadores conseguiram um efeito muito parecido, mas sem utilizar bactérias.

De acordo com os pesquisadores japoneses, o composto de cerâmica possui maior confiabilidade, já que resiste ao fogo.

O que esperamos daqui pra frente?

Primeiramente a tecnologia deve se difundir um pouco mais. Existem produtos no mercado que apresentam esses efeitos, mas seu uso ainda é muito tímido.

Ainda não vi estudos sobre algum risco biológico envolvido no uso das bactérias. Essa preocupação é maior pelo fato de que este tipo de concreto é muito desejado para tapar fissuras em reservatórios.

Quando falamos de proliferar bactérias em tanques cheios de água, há medo de contaminação.

Também em casos de bacias de produtos químicos agressivos, seriam as bactérias resistentes o suficiente?

Estes questionamentos ainda estão em vigor, mas não impedem a aplicação da tecnologia em diversos casos.

Um problema indesejável é a fissuração de lajes e pisos. Esse tipo de fissura tende a aumentar com o tráfego e também a permitir percolação de material. Caso o concreto desses pisos/lajes fechasse suas próprias fissuras, isso seria mitigado.

As bactérias não são lá tão rápidas assim, afinal falamos de algo microscópico. No que foi visto em experimentos, fissuras de até 0,3mm foram fechadas em torno de 15 dias. Também é importante que as fissuras sejam resultado de um evento ou carga não repetitiva.

Pois se ainda há movimento do concreto para reabrir as fissuras, pode ser que as bactérias não sejam tão eficientes.

Enfim, muito estudo pela frente, mas podemos ter certeza de que a durabilidade do concreto está prestes a ganhar uns bons anos a mais.

Um grande abraço.

Ronaldo Mendes Salles

 

Fotos e fontes:

Jonkers, H., Thijssen, A., Muyzer, G., Copuroglu, O., & Schlangen, E. (2010). Application of bacteria as self-healing agent for the development of sustainable concrete Ecological Engineering, 36 (2), 230-235 DOI: 10.1016/j.ecoleng.2008.12.036

American Chemical Society

 

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