Engenharia, uma carreira de progressão lenta.

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Certa vez eu assisti a um filme onde ouvi um jovem advogado falou a seguinte frase: “Eu sou um jovem numa profissão onde idade é tudo.”

Apesar de todo o drama que a obra cinematográfica queria passar, existe alguma verdade nessa frase.

Observando o mercado de engenharia, não é difícil notar esta regra. Afinal, como não notar uma regra que é aplicada a você no primeiro dia de trabalho e que te seguirá por toda a carreira?

Como dividimos nossa carreira?

A classificação funcional de um engenheiro, dentro de sua própria área de atuação se divide em: estagiário, trainee, júnior, pleno, sênior.

Talvez você já tenha entendido, mas a correlação de transição entre as classes não se baseia em nenhum mérito, destaque ou progressão meritocrática. A definição é apenas com base na quantidade de anos que passaram desde a conclusão do curso superior.

Existem muitas estórias, analogias e contos da carochinha sobre o valor da experiência, etc. Não posso negar nada a respeito de como a experiência fez muita diferença na minha carreira. Mas não posso dar o crédito apenas pela passagem do tempo, mas sim pelas experiências e situações a que fui exposto (mesmo as mais desagradáveis).

Estimo que caso tivesse tido contato com as mesmas obrigações, diálogos e contatos, creio que poderia obter uma experiência equivalente em bem menos tempo.

Mas nem quero discutir aqui a passagem do tempo, mas sim a especialização.

O normal de uma carreira é que com a progressão dos anos, assim como mudam os nomes, as funções de cargo superior são preenchidas. Desta forma (em boa parte dos casos) é possível montar uma escada ascendente em escala puramente cronológica, do cargo mais raso até a diretoria.

Novamente vamos tomar muito cuidado para não acabarmos no o erro de criticar a experiência, ela possui um valor muito alto.

Mas qual o problema?

Você já deve ter deduzido que o problema que enxergo é a falta de mérito envolvida na avaliação.

Não é tão incomum encontrar engenheiros mais novos com idéias interessantes e algumas vezes com capacidade técnica equivalente a de engenheiros de carreira mais longa.

A mudança muito rápida na tecnologia (que é difícil de acompanhar), faz com que exista um grande diferencial entre aquilo que era possível de se fazer/controlar 10 anos atrás, em relação ao que é possível hoje.

Existe uma barreira quase intransponível entre as possibilidades e energia aplicáveis por engenheiros mais novos, mas que são facilmente bloqueadas numa hierarquia rígida.

Claro que o diálogo e um bom relacionamento ajudam e podem até mesmo fazer essa barreira desaparecer. Mas pelo que já vivi (olha a experiência aí) não é tão comum assim, e quando ocorre, é resultado de alguns anos de insistência.

Impacto no cenário

Assim como tem sido abordado em vários setores, o desenvolvimento de um novo produto ou uma nova tecnologia, demora cerca de uma década se contarmos da ideia até sua concretização. (Meus exemplos são indústria automotiva e  aeronáutica)

Desta mesma forma, esse bloqueio invisível pode  provocar um atraso na aplicação de novas ideias e métodos.

No caso da engenharia civil, o desenvolvimento não tem ocorrido nos materiais, mas ainda há muito sendo desenvolvido em termos de administração e controle de operações.

Para outras áreas da engenharia, como a de materiais, estar atualizado e ter disposição de testar novas composições e materiais é essencial.

Mas as empresas não sabem disso?

Sim elas sabem, acho que ninguém acreditaria que elas são ignorantes a este respeito.

Então elas contornam o problema. São contratadas pessoas mais jovens, pois se acredita na energia delas. Precisa-se da disposição e da vontade de crescer que elas oferecem.

Elas lutam muito para conquistar seu espaço, afinal é disso que se trata quando falamos de vagas para estagiários e trainees.

Mas para alguém que se esforça, aplica novas metodologias e se mantém atualizado, qual a recompensa depois do cargo conquistado? Praticamente nenhuma.

O plano de carreira seguido tradicionalmente já está traçado, mesmo antes daquela pessoa entrar na faculdade. Como isto pode estar correto? Onde estão os conceitos de inovação e tecnologia que são comumente relacionados à engenharia?

A melhor comparação que encontro é de uma pirâmide financeira. Os novos funcionários aplicam sua energia para fazer o trabalho. Enquanto os demais superiores se ocupam em manter a equipe e não em se aplicar em melhorar a produção. Afinal eles também se valem dos resultados de seus subalternos.

Novamente é melhor eu explicar, não há problema com a hierarquia. Mas não uma hierarquia passiva, não faz sentido em uma equipe com foco produtivo e inovador.

Como mudar?

Difícil dizer, cada modelo de empresa precisaria de um estudo à parte. Mas algo tem de ser revisto e com urgência.

Realmente digo urgência, pois até que algo seja feito, levarão anos para que seja realmente implantado. Nunca é recomendável fazer alterações bruscas numa empresa com esse tipo de hierarquia. Mas a inércia é um sintoma de uma empresa que está morrendo.

Procurar líderes que não se importem em delegar e sejam bons ouvintes é algo essencial. Procurar profissionais que não se importem com a idade de seus líderes ou colegas, também é importante.

O ambiente da empresa deve oferecer um método que permita que as pessoas vejam o valor de seu trabalho. Que elas possam entender que aqueles mais capacitados e que são capazes de desempenhar eficientemente seu papel ocupam lugares superiores na hierarquia.

Existem exemplos assim?

Sim existem empresas de engenharia que aplicam essa metodologia. Tive a oportunidade de trabalhar em uma empresa meramente meritocrática. O modelo era incrível, você realmente sentia que seu trabalho fazia alguma diferença. indicadores era atualizados e aplicados individualmente. Prêmios oferecidos para os que tivessem melhor desempenho. Tudo muito lindo, até este ponto. Porém havia uma série de decisões internas que me desagradavam profundamente. Algumas que me deixavam incerto da qualidade e segurança do produto final por conta de metas muito arrojadas.

Ali se aplicaria muito bem a necessidade da experiência. Como tudo na vida, nenhum extremo é muito bom, há necessidade de equilíbrio.

Um grande abraço.

Ronaldo Mendes Salles

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