Assim como Howard Stark

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Me desculpem se novamente o título fica difícil de entender, mas não consigo deixar de me preocupar com os limites que enfrentamos em nosso dia-a-dia.

Novamente venho tocar no assunto “carros”, talvez porque essa seja uma de minhas obsessões.

Acabei de ler a matéria do MIT TechReview onde eles relatam que o NavLab havia desenvolvido um carro “autônomo” em 1986. Claro que não era algo super equipado, ergonômico, rápido, eficiente, etc, mas funcionava de certa forma.

A van, que os próprios criadores descrevem como “um furgão do FBI” era repleta de computadores, quente e muito, muito lerda mesmo.

Uma mostra da prática que era possível com a tecnologia da época.

Muito se desenvolveu em tecnologia nova, mas muito se avançou em tecnologia de redução de tamanho. Desde os computadores utilizados na II Guerra Mundial, devemos ter reduzido o tamanho dos processadores em alguns bilhões de vezes. Mas o que se fez a respeito do carro autônomo? Nada.

Dependeu de pequenos investidores gerarem furor o suficiente para que a Google se interessasse pelo caso. Quando um grande jogador ou alguém famoso entra numa disputa, ou anuncia que pode fazer algo, isso chama a atenção pra valer.

Imagino como ficaram as montadoras quando a Google disse que iria revolucionar seu produto. “Estamos ficando pra trás” imagino que tenha sido a reação mais leve.

Quando a Tesla saiu em disparada na produção de seus carros elétricos, imagino que eles tenham se dado conta do tamanho de sua incapacidade.

Desculpem eu ter divagado, mas vamos voltar ao ponto.

Inventores, engenheiros, construtores, idealistas, todos somos delimitados por fronteiras invisíveis, que nos contém numa “normalidade” e que muito dificultam o desenvolvimento.

Comparado ao que se fez em 1986 na intenção de mostrar o poder dos computadores, não foi dado o crédito para a real capacidade de produção de um veículo assim. Mesmo que os criadores desejassem seria algo inviável, pois em 86 não havia um meio de se reduzir os computadores para a escala de hoje. 

Talvez você ache estranho que inventores não consigam “inventar”, por conta de algo que ainda não foi criado ou desenvolvido.

“Eles não são inventores? Que inventem o que precisam também!”

Mas a lista de conhecimentos necessários e investimento é tão grande, que seria impossível a uma pessoa ou equipe desenvolver.

Então sempre que me deparo assistindo a um certo filme e ouço o inventor fictício Howard Stark, afirmar que ele estava “limitado pela tecnologia de seu tempo”, imagino quais as limitações que nos seguram hoje.

Para citar tudo que gostaria, creio que levaria um mês só falando disso, mas não sei se seria algo útil ou interessante para você, querido leitor que acompanha este humilde blog (sim é um blog, mesmo que eu não goste de assumir).

Mas vou resumir, se possível.

1- Quem você quer ser quando crescer?

A educação é uma das maiores geradoras de barreiras. Pois acaba sendo de certa forma a seletora de funções. Quem “estuda menos” acaba em uma função mais artesanal, quem consegue galgar destinos mais altos de instrução costuma rejeitar esse tipo de trabalho.

E este é o primeiro erro grave que cometemos. A remuneração acaba sendo o fator mais importante (algo justificável em países onde há preconceito salarial sobre atividades produtoras) e com isso temos uma grande fuga de atividades necessárias à produção. Ficamos com a “sobra” para realizar trabalhos e serviços que todos nós precisamos no dia-a-dia. Acabamos por nos sabotar, pois ficamos dependentes daqueles que em boa parte são desprezados.

Quem iria construir os sonhos se todos fossem somente pensadores? Vejam o exemplo de Da Vinci, um grande pensador, mas que ultrapassou essa barreira e se deu ao trabalho de desenvolver seus protótipos em outras áreas além da pintura.

Outra faceta da educação é que ela é seletiva. Estamos na onda do empreendedor. A grande campanha de formar empreendedores e não funcionários hoje é vendida como uma vantagem. Mas daqui algumas décadas, como será vista a falta de mão de obra? Como faremos com as atividades operacionais, quais os empreendedores delegam aos seus funcionários? Estamos criando um sistema de empresas servindo empresas, onde não há mais pessoas, todos somos peças substituíveis

2- Economia, política e cultura

Agora sendo mais focado no Brasil. Como (ou quando) vamos superar nossas barreiras de produção? Ainda continuamos com o mesmo sistema de exportar matéria prima e importar produto industrializado. Nossa própria indústria não consegue produzir aço mais barato do que a China que importa nosso minério, produz barras e traz tudo de volta a nós por transporte naval. Existe algo mais ridículo do que isso?

Ser capaz de inventar algo no Brasil é muito difícil. Todos os tipos de tecnologias atuais são importadas. Sejam peças ou equipamentos inteiros. Não há infraestrutura de produção.

Estamos limitados pela falta de infraestrutura, que seja quem tenha feito, quem não tenha feito. Problema nosso! Nós brasileiros que deixamos isso acontecer.

Certas vezes penso que as pessoas desenvolveram um raciocínio ante desenvolvimento. Elas pensam que a indústria as abandonou, pois muitos são substituídos por máquinas em suas funções então elas abandonaram a indústria também.

Uma barreira ligada ao parágrafo anterior também é a vilanização do patrão. O patrão é sempre o inimigo, sempre o que escraviza. Com o advento da internet, as grandes corporações podem se esconder no mundo virtual e conseguir se safar desse comportamento. Mas para as indústrias, que precisam de espaço físico, galpões, máquinas, tanques e outras construções que saltam aos olhos, não há perdão.

3- Burocracia

Esse é o ponto mais fácil de citar, pois você já experimentou ou experimenta. Não preciso te lembrar de algum caso famoso, só preciso te lembrar que somos um dos países mais lerdos do mundo quando o assunto envolve empresas.

4- Infraestrutura

Para organização, produção e comercialização de qualquer coisa, há de haver certa ordem. Infelizmente de todos os modais (tipos de transportes) que existem, contamos com um dos piores modelos produtivos. As rodovias tem alto custo de manutenção, requerem grande investimento inicial e não são dedicadas para fins únicos.

Sempre se discute transporte ferroviário de cargas, e não vejo avanço no assunto.

Mas vamos além do que todos falam. Citar infraestrutura é também ver como são organizadas as cidades, suas áreas. Provavelmente você vive em uma cidade que teve sua estação de trem, rodoviária, aeroporto ou indústria chefe rodeada por imóveis residenciais com o passar do tempo.

Isso também é falta de infraestrutura, a desorganização dos governos locais, unido a falta de bom senso da população faz com que se formem abominações na ocupação do solo de uma cidade.

Exemplos de aeroportos que não podem se expandir para modernização, empresas que sofrem de reclamação por seu funcionamento, são casos comuns. Chegamos a exemplos que não estão no assunto geral, mas estão nesse mesmo problema. Locais de eventos como autódromos, que estão isolados, mas ao longo do tempo foram rodeados por pessoas que hoje reclamam do barulho que vem de lá (José Carlos Pace que o diga).

Quem teve a oportunidade de jogar o maravilhoso SimCity e tentar construir uma cidade próspera, organizada e rentável, sabe bem o desafio.

Enfim…

Vou parar por aqui. Chega de lamentar, são muitos os pontos a melhorar, temos de continuar lutando para que possamos fugir do esteriótipo e não tenhamos que nos limitar somente ao que temos hoje à disposição.

Um Grande abraço.

Ronaldo Mendes Salles

Engenheiro Civil – Fundador do Engenheiro de Pijama

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