A falha do mercado brasileiro.

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Depois de vivenciar muitos absurdos e problemas genéricos do dia-a-dia da engenharia, nós acabamos ainda por nos surpreender com aquilo que vemos diante de nossos olhos.Laudo-MP-rachadura-falhas-projeto-ciclovia-Tim-Maia

Quero citar algumas tragédias ocorridas, onde os engenheiros tiveram participação decisiva, mas é claro que existem mais casos e se alguém quiser comentar no final do post fique à vontade.

Palace II

Este prédio residencial foi um caso muito divulgado pela mídia no momento ocorrido. O agravante nesse caso é que o prédio recém construído veio a ruir sem muito aviso e de forma trágica, ceifando algumas vidas. No momento as reportagens encontraram algo estranho nos escombros, conchas. Com base na suspeita que essas conchas criaram, foi-se percebido que a obra havia utilizado de areia imprópria (talvez extraída da praia) e isso teria sido suficiente para minar a resistência da estrutura e causar a queda do edifício.

Em certos aspectos, o nível de conhecimento dos repórteres (que por meljor intencionados ou investigativos que sejam, normalmente não tem conhecimento profundo do assunto) foi interessante, pois eles conseguiram chegar à conclusão que o uso de agregados de má procedência pode representar grandes danos às estruturas. Mas pela mesma falta de conhecimento, não sabem que esse tipo de uso de agregado traria mais patologias visíveis, que porventura poderiam ajudar a prever a tragédia.

O fato real e apurado, mas que pouco se falou na mídia é que a areia que foi usada (que era realmente imprópria) foi usada no contrapiso, ou seja, sobre as lajes e não diretamente na estrutura. O fator real que causou a ruína da estrutura foi a inversão de dois pilares. Com isso a estrutura perdeu a capacidade de suportar os esforços e ruiu. Até hoje, pouca gente sabe disso.

Queda de estruturas em construção

Não é tão incomum observar a queda de estruturas (principalmente de infraestrutura viária) que ainda não foram terminadas. Isso costuma se dar porque os nobres engenheiros (sejam eles de projeto ou de execução) se esquecem de prever sistemas de apoio estáveis para a etapa de montagem de vigas e lajes, costumeiramente.

Não existe muita bibliografia no assunto de apoios temporários, pois quase todos os fabricantes e envolvidos procuram se importar com o estado final das estruturas e imaginam que os executores e montadores possuam seus próprios sistemas para solucionar os casos intermediários. Atenção, infelizmente muitos profissionais são meros cumpridores de ordens e não vão prever nada além do solicitado, mas nem todos são assim.

Claro que esse problema não é só brasileiro, mas nós estamos em uma condição crítica. Alegamos possuir um corpo de engenheiros hábil e capaz de grandes obras, mas nós somos os primeiros a dizer que 50% dos profissionais que formamos não estão capacitados para exercer a função ao sair da graduação.

Obras da Copa e Olimpíadas

Sempre é triste perceber o descaso dos trabalhos que as obras públicas são tratadas. A falta de planejamento e depois a pressa dos prazos é uma combinação mortal. Isso ocorre no setor privado também e pasmem que quanto maior o empreendimento, mais fácil é ver essa ocorrência (deveria ser justamente o inverso).

O estado em que se encontram vários estádios feitos/reformados para a copa do mundo e que de certa forma já estão apresentando problemas, retratam bem essa condição em que se encontra a engenharia brasileira.

O que é fracasso?

No meu ponto de vista várias obras são verdadeiros fracassos. Não acredito em uma obra perfeita e sem problemas, mas se uma obra está fadada a começar sem que o projeto possa antecede-la é grande candidata ao fracasso.

Fracasso é o que eu chamo de ineficiência, seja ela por falta de criatividade ou por falta de escolha. Uma obra fracassada pode, portanto, ser uma obra onde um projetista estrutural dê uma solução que somente um fabricante possua tal sistema, ou que ele seja obrigado a sugerir ou “copiar” (sejamos honestos engenheiros e não vamos negar) soluções já conhecidas sem maiores estudos de sua aplicação no caso específico.

Vários fatores podem contribuir para esse “fracasso” de obra, mas vou tentar enumerar alguns:

– Falta de capacidade/vontade de investimento financeiro no pré-desenvolvimento de produtos/projetos que ainda não trarão receita garantida.

– Indefinição por parte do cliente ou demais partes devido à sua estrutura muito extensa com muita burocracia.

– Desvalorização profissional dos demais processos envolvidos, seja por descaso ou por ignorância.

– Desvio de função proposital para que depois a obra/projeto seja feita com máxima pressa e com fiscalização reduzida, facilitando possíveis desvios.

– Procura pelo menor custo “a qualquer preço”.

Enumerando esses itens de pronto logo você pode pensar que todas as obras são fracassos, e de certa forma são mesmo. Dificilmente uma obra espera todo o projeto ser concebido para começar a colocá-lo em prática. Não que isso seja impossível, mas ocorre com uma frequência muito menor que o desejado e também costuma acontecer com obras de valores mais baixos.

Vamos trabalhar um pouco mais os itens citados:

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Falta de capacidade/vontade de investimento financeiro no pré-desenvolvimento de produtos/projetos que ainda não trarão receita garantida.

É comum as obras serem orçadas em contratos de risco, onde todo o tempo e energia gastos serão perdidos se não ganharem a concorrência. Isso é uma lei natural do mercado para a livre concorrência, mas se põe como uma faca de dois gumes, sendo que a balança financeira também trabalha com mais variáveis, como investimento, tecnologia e mercado. Se houver muita tecnologia, há maior confiabilidade no investimento para atender o mercado. Se houver muito mercado, haverá interesse em investir, gerando tecnologia. Porém se duas variáveis estiverem baixas, como tecnologia e investimento, tecnologia e mercado ou investimento e mercado, a situação é insustentável.

Infelizmente no mercado da engenharia é fácil que duas dessas variáveis estejam em patamares baixos simultaneamente. Um pré-projeto onde uma empresa arrisca seu tempo e não possui um compromisso firmado com o cliente para contratação, é um caso de mercado baixo (produto para um cliente e com alto risco), que inspira investimento baixo, gerando um produto de pouca tecnologia.

Indefinição por parte do cliente ou demais partes devido à sua estrutura muito extensa com muita burocracia.

Esse assunto é muito aberto, pois não há como ser específico sem que este texto seja maior do que já é. O cliente deve ter uma idéia clara do que quer, ou aceitar passar o tempo definindo seus desejos e não onerar as demais partes.

O cliente também deve entender que o tempo gasto no planejamento financeiro de seu empreendimento deve ser menor ou igual ao tempo que será gasto no planejamento estratégico de execução do empreendimento. Isso é tão simples e ao mesmo tempo mal aplicado, pois quantas empresas passam meses planejando seus recursos e depois pedem dias para que os concorrentes apresentem suas propostas finais.

Imagine que você passou alguns meses planejando uma viagem, mas nesses meses todos, só planejou a parte financeira. Depois de todo esse trabalho, você gasta apenas uma semana decidindo o que quer fazer e onde ir nessa viagem. Não faria sentido, já que primeiro pesquisamos todos os custos do que queremos fazer e depois fechamos a parte financeira.

Outra faceta malévola (sim essa é a palavra que acho apropriada) é que existem etapas de concorrência que não são eliminatórias, pois na verdade cada etapa forma uma opinião, que em si já gera uma classificação.

Desvalorização profissional dos demais processos envolvidos, seja por descaso ou por ignorância.

Essa é a forma mais fácil de ver um empreendimento dar problema. Profissionais de diferentes áreas costumam ver o trabalho dos demais como algo simples e sempre há a suposição de que “eles têm que se virar”. O problema é que dificilmente o mesmo profissional que faz a citação está disposto a fazer o mesmo ou sequer conhece tão bem as demais áreas para saber se o que afirma é possível.

Operários trabalham em obras de remoção de escombros do viaduto que desmoronou na Avenida Dom Pedro I em Belo Horizonte (MG), neste domingo (13). André Brant/Hoje em Dia/Futura Press

Fora isso, existe inexplicavelmente uma sensação de que o trabalho que outra pessoa faz é parecido em com outro de custo bem menor. Esse tipo de problema ocorre muito com profissionais de trabalhos quais mais de uma profissão podem exercer resultados “parecidos”. Ocorre com médicos clínicos gerais x enfermeiros, engenheiros x pedreiros, arquitetos x engenheiros x técnicos em edificações, e em tantas outras profissões.

Desvio de função proposital para que depois a obra/projeto seja feita com máxima pressa e com fiscalização reduzida, facilitando possíveis desvios.

Esse é rápida, corrupção, pública ou privada.

Procura pelo menor custo “a qualquer preço”.

Por mais que a frase seja paradoxal, ela é muito real. Várias empresas acabam procurando por reduzir custos de todas as formas, mas a mais conhecida é em pressionar quem oferece serviço a oferecer o menor possível (em algumas vezes preços impraticáveis).

Não há exatamente uma fórmula para se fazer isso, por uma questão cultural (como citado acima) a falta de comunicação entre as disciplinas faz com que a redução dos custos acabe por conta da equipe de execução, que tem de avaliar como efetuar os processos da maneira mais econômica possível.

As verdadeiras tragédias da engenharia tendem a ocorrer quando são deixadas de lado verificações de segurança em prol de um preço reduzido. Essas verificações são geralmente custosas, pois os profissionais envolvidos nelas “não estão produzindo” e como já falamos da depreciação entre profissionais, fica a impressão que as equipes direcionadas a rever o que foi feito são apenas aproveitadores do trabalho dos outros e estão lá para apenas prejudicar aqueles que estão “trabalhando de verdade”.

Segurança ao tombamento, segurança na etapa de montagem, transporte, prever etapas de execução, verificar desenhos de projetos, etc, são exemplos.

Sempre que falo desse tipo de comportamento as pessoas criticam dizendo que isso não existe mais, “Imagina se em pleno século XXI ainda temos esse tipo de comportamento! ”, mas sim, ele existe.

Enfim…

Gostaria que você entendesse que esse texto é um alerta, muitos de nós fechamos os olhos para os males da engenharia e não lutamos mais para que possamos ver uma solução futura para estes problemas, mas estamos vendo tragédias presentes (e futuras) e só depois do ocorrido criticando a forma com que as coisas têm sido feitas

Estou cansado de ver retrabalho, projetos inteiros sendo redesenhados para que a construtora possa apresentar ao cliente, e modelos feitos pela construtora nas etapas de planejamento são descartados pelos projetistas.

Ficaremos contidos no processo simplório de nossos escopos de serviços e faremos tudo como uma série de regras dita? Vamos deixar tragédias acontecerem e depois vamos nos defender, “está de acordo com a norma”, ou “segui os procedimentos padrão”. Que tal começarmos a usar o bom senso, que na minha opinião é o grande pai da engenharia e observar aonde os processos devem ser melhorados e, se necessário, tomar medidas de segurança que tornem nossos empreendimentos/produtos/processos/projetos mais seguros e eficientes?

Um grande abraço!

20151022_132555Ronaldo Mendes Salles

Engenheiro Civil – Engenheiro de Pijama

 

 

 

Fontes e imagens:

Terra

O Estado de São Paulo

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